Jéssica
morava no bairro Tatuapé. E a viagem foi longa até Lorenzo conseguir estacionar
na frente de sua casa. Durante o trajeto eles conversaram um pouco, mas a
timidez continuava ali. A menina em seus braços tinha os cabelos um pouco mais
escuros e um ar angelical. Lorenzo achou que ao menos da criança ela não se
importaria de falar.
-
Não é muito tarde para uma criança estar na rua? – Ele puxou o assunto.
-
Talvez. – Ela ficou ainda mais tímida. – Mas eu tive de buscá-la na casa de uma
amiga e preferi esperar a chuva parar. Só que alagou a cidade.
-
Entendo. Como ela se chama?
-
Clara.
-
Ela é sua irmã? Vocês são parecidas.
-
É minha filha. – Ele não ia parar de perguntar nunca? – Deve ser por isso a
semelhança.
Tão
jovem e com uma criança que deveria ter no mínimo uns três anos. Lorenzo
lembrou a si mesmo que aquilo era comum. Não que para ele fosse normal. Ainda
mais porque Jéssica não usava aliança. Mas se calou. Aquilo não era da sua
conta e a jovem já estava tímida demais para ele pressioná-la novamente. Então
apenas guiou o carro até encontrar o endereço dito por ela. Ignorando o estado
do imóvel e a escuridão daquela rua, desligou o carro e voltou-se para Jéssica.
-
Estão entregues. Boa noite Jéssica. Cuide bem da pequena Chiara.
-
Como disse? – Jéssica espantou-se.
-
Chiara. É Clara, em italiano.
-
É bonito. Boa noite, Senhor Lorenzo. Eu não tenho como lhe agradecer.
-
Não precisa. Só me chame de Lorenzo.
Ela
saiu carregando a menina e ele ficou observando-a abrir a porta e acender as
luzes. Iluminado o lugar assustou-o ainda mais. Ela devia morar sozinha com a
criança ou havia alguém esperando-a. Impossível não pensar que aquela casa não
era segura o bastante para uma mulher sozinha e uma criança.
-
Isso não é da sua conta, Lorenzo. – Disse a si mesmo e virou a chave para ligar
o carro.
E
nada aconteceu. Tentou novamente. E teve silêncio como resposta. Na terceira
tentativa o motor engasgou, mas não pegou. Ao ligar para a seguradora, ouviu do
atendente que os casos de carros parados pela cidade estavam se acumulando
porque, ao tentar atravessar ruas alagadas, os motores ficavam prejudicados.
Não havia sequer previsão para alguém vir resgatá-lo.
Estava
numa rua sem movimento, a chuva voltava a ficar intensa e era muito tarde. Sua
noite não podia ficar pior. Com medo de um assalto, pegou a carteira que tinha
jogado sobre o painel do carro e saiu acionando o alarme. Só tinha uma
alternativa, além de passar a madrugada dentro do veículo. Tocou a campainha da
casa de Jéssica, torcendo para não acordar Clara.
-
Meu carro não quer pegar. Será que eu posso entrar? – Perguntou assim que viu
Jéssica abrir a porta com a expressão assustada. – Algum problema?
-
Não! – Ela apressou-se em dizer. – É só que...bom...eu...
-
O seu marido não gostará de me ver aqui. É isso? – Ela podia ter alguém e não
usar aliança.
-
Não. Entra! É...eu não tenho marido não. É só que a casa não é bem o tipo de
lugar que o senhor frequenta.
Não
era mesmo. Assim que entrou, Lorenzo percebeu a pintura e os móveis desgastados
pelo tempo. A pobreza do lugar, no entanto, era disfarçada pela limpeza e
organização. Era o lar delas. E Lorenzo sabia que confirmar aquela afirmação
seria muito desagradável.
-
Não tem problema. Eu só quero descansar e esperar o dia clarear antes da
seguradora vir buscar meu carro. Esse sofá está ótimo.
Jéssica
colocou travesseiros e um cobertor para deixar o sofá um pouco mais agradável.
E disse que casa precisasse de algo, era só chamá-la. A filha dormia com ela no
único quarto da casa. E Lorenzo ficou ali, sozinho, em um lugar terrível se
comprado com qualquer local onde já tenha vivido, na madrugada, e sem sono
algum. Passou algum tempo deitado, desconfortavelmente, no sofá e só então o
sono pareceu se aproximar e apagar seus pensamentos durante alguns minutos. Lá
fora a chuva ainda caía e o barulho sobre as telhas embalava o sono.
Até
que, algo o acordou do sono, leve e breve. Ao espiar o relógio em seu pulso,
viu que ainda eram 5h30min. Logo amanheceria. Mas foi o choro de Clara, no
quarto que o acordou. Ela estava sonolenta e choramingava para a mãe. Será que
havia algo de errado? Ela tinha pego chuva. Podia ter ficado doente. Curioso,
levantou-se e se aproximou da porta fechada.
-
Dorme, Clara. É muito cedo. – Ouviu Jéssica dizer para a filha.
-
Eu to com fome, mamãe. Quero meu mamá. – E menina pediu.
-
Agora não tem filha. Mamãe te dá café com leite quando amanhecer.
-
Mas eu to com fome.
-
Dorme que passa. Agora a mamãe não tem o que te dar. – Jéssica negou mais uma
vez e a menina não insistiu mais.
E
aquela aceitação silenciosa parecia de quem já estava acostumada. Lorenzo ficou
em choque com o que tinha ouvido. Ninguém deveria dormir com fome. Ninguém
conseguia dormir com fome. E parecia crueldade demais alguém dizer para uma
criança tão pequena que não lhe daria o que comer. Ele abriu a geladeira da
casa e viu as prateleiras vazias. No armário praticamente a mesma coisa. Sobre
a mesa da cozinha havia algumas contas aguardavam pagamento.
Naquela
noite ele tinha jantado num evento elegante onde muita comida foi desperdiçada
e a injustiça daquela criança chorando de fome lhe doeu na consciência. Quando
um novo choramingo começou, lembrou-se que podia ajudar e foi até o carro
estacionado na rua. Não tinha problema se iria se molhar na chuva fria mais uma
vez.
Apesar
de ter pego a chave da porta e aberto com todo o cuidado, ao retornar
carregando uma barra de chocolate que tinha no carro, encontrou Jéssica na
sala, vestindo short e camiseta. Não tinha como evitar o constrangimento da
situação.
-
Dá para ela. – Disse estendendo o chocolate. – Não deixe Chiara com fome.
-
Obrigada. – Ela pegou o doce e levou para a criança.
Envergonhada
por ter de aceitar a ajuda de Lorenzo, mas feliz em ver Clara dormindo tranquila,
Jéssica conseguiu dormir e, ao acordar, foi a cozinha pensando em oferecer para
ele ao menos um café preto antes de ir embora. Era apenas 8h40 da manhã. Mas
ele já não estava lá. E sobre a mesa havia uma sacola de compras.
-
Você não fez isso. – Disse a si mesma enquanto olhava as compras.
Mas
tinha feito. Quando amanheceu a segurado lhe enviou uma mensagem informando que
em meia hora iria resgatar seu carro. Quando chegaram perceberam que se tratava
apenas de um problema na bateria, facilmente resolvido. Mas antes de ir embora,
ele passou num mercado próximo e fez algumas compras. Aquela criança e sua
jovem mãe não deveriam passar fome. Junto das compras, numa atitude quase
impulsiva demais para sua idade, deixou seu cartão de visita, com número
pessoal, sobre a mesa. Com um recado agora lido por Jéssica.
[Ligue se
precisar de algo. Não deixe Chiara necessitando de nada.]
-
Como assim?!!?!?! Não posso ligar para alguém que não é nada meu para pedir o
que Clara precisa! – Para Jéssica, Lorenzo parecia um homem muito estranho.
Ninguém se preocupava assim com alguém que não era sua responsabilidade.
Mas
Lorenzo não era assim. Para ele, todos deveriam ter o que era básico. E criança
nenhuma deveria sentir fome enquanto outros desperdiçavam. Por isso, na
Vinícola Vicentin, sempre pagaram salários dignos. Mesmo que isso representasse
um lucro menor. E isso deveria ser uma prática na construtora de seu irmão.
Mesmo num posto de trabalho de baixa qualificação, Jéssica deveria receber um
salário capaz de alimentar sua filha. Ele cobrou isso do irmão.
-
Eu não sei o salário da moça que serve o café, Lorenzo. Porque deveria saber?
Sabe quantos funcionários a construtora tem? Acho que a equipe de limpeza e
serviço é terceirizada. – Jonas respondeu.
-
Eu estive na casa dela. Ela não vive bem e cria sozinha a filha. Passa por
dificuldades.
-
Você esteve na casa da arrumadeira do meu escritório? É isso? Por quê?
-
Não vem ao caso. – Ele não estava com vontade de explicar. – O que interessa é
que vocês precisam verificar isso. Não é certo. Por favor, Jonas.
-
Está bem. Eu não sabia de nada disso. Juliana é a diretora administrativa.
Essas questões nunca passaram por mim, Lorenzo. Mas eu vou verificar.
Jonas
pediu para Juliana rever os contratos terceirizados da empresa e lhe enviar um
relatório. Ele e Emily iriam viajar e, quando retornasse ele verificaria tudo
aquilo. Mas realmente não desejava pensar em nenhum problema nos próximos dias.
Depois da bateria de exames que ele e Emily fizeram, precisava de descanso. E
sequestrou a noiva.
-
Eu não posso viajar novamente, Jonas. Estou muito afastada do restaurante e
isso é ruim. – Ela ainda tentou argumentar.
-
Você está, pela primeira vez na vida, esquecendo um pouco das responsabilidades
e do trabalho para aproveitar o seu tempo com o que te dá prazer. Uns dias de
descanso não lhe farão mal.
-
É você quem me dá prazer. – Ela respondeu. – Em todos os sentidos, aqui em São Paulo ou em qualquer
lugar.
-
Ótimo. Darei em Bento
Gonçalves nos próximos dias. Coloque casacos na mala, fará
frio. E não esqueça da Milla, está na hora dela conhecer nosso segundo lar.
Naquele
momento, Jonas, Emily e a boneca Milla chegavam a Bento Gonçalves. Antes mesmo
de ir na casa da família, ele resolveu parar num parque. O friozinho de 5 graus
a fez se aconchegar nos braços dele. Era delicioso para namorar, mas, Emily se
arrependeu de não ter colocado mai um casaco.
-
Só tenho dois comentários sobre esse lugar, Jonas. É lindo. Fascinante. Eu
consigo entender porque você ama tanto.
-
E? Qual o segundo comentário.
-
É frio demais! Minhas mãos estão congelando.
-
Vamos pra casa. Vou acender a lareira, abrir um vinho e te servir uma seleção
de queijos fantásticos. Podemos fazer fondue
-
Eu vou engordar assim, Jonas.
-
Vai mesmo. – Ele riu da expressão dela. – É verdade. Eu sempre engordo um pouco
quando venho. E você vai continuar linda. Além disso, uma barriguinha está nos
planos, não?
-
Sim. Mas pelo seu filho! Não porque estarei gorda! Mas agora eu fiquei com
vontade de comer fondue. Não sei quando terei outra oportunidade.
-
Ótima decisão, futura senhora Vicentin. Agora vamos, antes que você comece a
tremer de frio. Minha família a aguarda ansiosa.
Era
verdade e, estranhamente, Emily não se sentiu nervosa por encarar aquela grande
família. Agora como a noiva de Jonas. Giovanna e Leonel a abraçaram logo na
entrada. Estava claro que o pedido de casamento era conhecido por eles. Mas
eles entendiam o jeito discreto de Jonas e não comentaram nada.
-
Pai, mãe! Que bom vê-los. – Ele abraçou-os.
-
Entrem, crianças. Saiam do frio. Emily certamente não está habituada a esse ar
gelado. – O pai de Jonas recepcionou-os tranquilamente. – A lareira está acesa
e mia madre está com o fogão à lenha funcionando desde cedo. Delícias quentes
para vocês.
-
Que maravilha, Senhor Leonel.
Já
dentro de casa, vovó Ângela foi bem menos discreta. Não que isso fosse uma
surpresa. Dona Ângela chegou na sala, ainda usando avental e, num gesto
tipicamente italiano, beijou Jonas em ambas as faces. Depois fez o mesmo com
Emily.
-
Você nunca me enganou! Logo que vi vocês juntos soube que meu neto estava
fisgado! Agora que ele finalmente escolheu a noiva, vamos organizar o casamento
e esperar pelos bebês! Mal posso esperar pra ver meus bisnetinhos correndo
nessa sala!
-
Acalme-se Ângela! – Seu marido, Francesco, pediu. – Deixe-os aproveitar o
namoro.
-
Tudo ao seu tempo, vovó. – Jonas brincou, vendo Emily começar a ficar tímida.
-
Sim, eu entendo. Mas que não demore muito. Já basta Lorenzo e Milena que não me
dão bisnetos.
-
Eu sabia que ia sobrar uma repreensão pra mim. – Milena entrou na sala
brincando. – Jonas, Emily, que bom que chegaram bem. O quarto de hóspedes está
arrumado para você.
-
Não será usado. – Jonas disse. – Emily ficará comigo.
Ninguém
discutiu e eles foram para o seu quarto, namorar na privacidade do lugar. O
quarto era muito confortável e amplo. Eles não precisavam de mais nada. Um
banho quente, algumas doses de vinho e, entre carícias, eles passaram aquele
final de tarde. Com aquecedor e os beijos de Jonas, Emily voltou a se esquentar
e exibir o mesmo jeito discretamente sensual pelo qual Jonas se apaixonou e
que, na frente dos outros, ela mantinha escondido.
-
Depois que eu tiver o nosso bebê, a sua família vai me aceitar. – Ela lhe
disse, ainda ofegante, deitada em seu peito.
-
Eles já te adoram. Com ou sem bebê.
-
Mas é diferente. Eles querem uma criança.
-
Sim, querem. Mas isso não significa que a gente precisa dar a eles. – Ele
sentou-se para olhá-la de frente. – Emily, preciso que você entenda uma coisa.
O meu pedido de casamento vai além do bebê. Eu quero você como minha esposa e
quero o filho pelo qual nós estamos lutando. Mas, se por acaso, ele não vier, o
noivado se mantém.
-
Mas...
-
Sem mas. Você será a minha esposa. É isso que a minha família sabe. E eu não
pretendo falar nada sobre o tratamento. Eles não precisam saber os caminhos que
nos levaram ao noivado. Só ficar felizes pela nossa decisão.
Emily
entendia, mas não acredita que aquilo era toda a verdade. Estava na cara que
Jonas não tinha certeza de que ela poderia lhe dar aquele bebê. Claro! Se nem a
médica pode afirmar isso, ele não queria dar falsas esperanças à família. E, se
para Jonas até pouco tempo não ter filhos estava longe de ser um problema, a
família dele tinha ideias bem diferentes. Se ela não engravidasse, logo não
seriam tão simpáticos assim.
Ela
preferiu não dividir com ele aquele pensamento triste e continuou a acariciar o
homem que tinha mudado sua vida para melhor. Quando saíram do quarto já era
muito tarde e o desejo de Emily foi atendido. Ela e Jonas tiveram a sala da
casa só para si, junto de uma lareira aquecida pelo fogo e o fondue
borbulhante. O cheiro é irresistível.
-
Esse é de queijo. Amanhã provamos o de chocolate.
-
Maravilhoso. Quando voltarmos para São Paulo, farei dieta. Ficarei só na salada
por uma semana.
-
Desnecessário. Garanto que você queimará todas as calorias. Você terá muitas
atividades por aqui.
-
Se forem deliciosas como as de hoje a tarde, acho que estendo nossa passagem
pelo sul. – Disse enquanto abocanhava mais um pedacinho de pão banhado no creme
de queijo. – Fondue, vinho e você. É o paraíso.
-
Gulosa! Eu não estava falando de sexo. Amanhã vou te levar para passear. Pela
manhã vamos fazer compras na cidade. Não posso te monopolizar no quarto.
-
Pode sim. Eu não me importo.
-
Não me tente Emily. – Ele disse sorinho e enchendo as taças comum vinho de tom
muito escuro, encorpado e perfumado. – Prove esse. É de uma safra maravilhosa.
-
Divino. – Ela disse após o primeiro gole. – E o que faremos a tarde?
-
Vou te levar para cavalgar. Vai conhecer o meu cavalo.
-
Eu nem sabia que você tinham cavalos aqui.
-
Para a lida não temos. Não precisamos do trabalho de animais. Mas temos alguns
particulares. Eu adoro cavalgar. É uma sensação maravilhosa.
-
Mas eu não sei. Vou cair!
-
E quem disse que vou te deixar subir num cavalo sozinha? Não! Você andará só
comigo. Eu cuido do que é meu.
-
E eu sou sua?
-
É. Toda minha.
Eles
seguiram entre beijos e carinhos até resolverem que era hora de dormir. Para
desgosto de Jonas, Emily resolveu conferir o celular antes de dormir. Ele
preferia que ela tivesse se desligado completamente. Mas foi bom. Porque os
olhos dela brilharam ao ler uma mensagem.
-
O que foi, Emily? Ganhou na loteria?
-
Não! Muito melhor!
-
Diz! O que é?
-
É de Leonor. Os exames tiveram ótimos resultados. Quando voltarmos pra São
Paulo podemos fazer a inseminação. – Havia emoção na voz dela. – Eu vou
engravidar.
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