O amanhecer na propriedade dos Vicentin foi
silencioso, quase preguiçoso. Os passarinhos faziam o cenário parecer
perfeito...perfeito demais, pensou Milena ao despertar e perceber que não estava
sozinha em sua cama. Tão perto e tão longe ao mesmo tempo, Nathan ainda dormia,
tranquilo e seguro, como se ali estivesse noite após noite.
Apesar
de terem uma história juntos, coroada por Maria Fernanda, e de terem vivido
momentos muito intensos, Milena reconhecia íntima e silenciosamente que ambos
não se conhecem. Sabem o que atrai e satisfaz o outro na cama, mas desconhecem
suas motivações, suas fontes de felicidade e, principalmente, os sentimentos
que comandam suas ações.
Observando
o amante, foi impossível não sorrir, mesmo sabendo que sua vida estava mais
bagunçada do que nunca e que apenas ele merecia ser responsável por isso. Novamente
ele. Agora já era impossível negar que Nathan tinha uma imensa facilidade de
fazê-la mudar de direção e seguir para onde ele queria levá-la. Passar aquela
noite em seus braços apenas serviu para complicar as coisas. Agora já não podia
negar que ele não mais era algo o passado, não quando provara ainda saber como
ninguém como fazê-la perder a cabeça.
-
Você é um filha da mãe que eu deveria expulsar da minha cama. – Ela disse
quando estavam quase cochilando na cama, após uma transa rápida. Eles mantinham
o conhecimento do corpo um do outro.
- Mas
não vai expulsar. – Provocou ele, satisfeito em tê-la em seus braços. – Porque sabe
que podemos ter uma noite bem mais agradável juntos. Se eu for para meu quarto
agora, você ficará frustrada porque não teve tudo o que merece.
-
Apenas eu estaria frustrada? – Milena provocou-o. Ali estava uma característica
que manteve o relacionamento secreto do passado vivo naqueles meses. Eles mandavam
recados a cada palavra dita. E a mensagem atingia diretamente na libido do
outro.
- Eu estaria mais do que frustrado, minha bela. Eu
estaria devastado porque além de insatisfeito, seria sinal de que não a tratei
como devia. – Ele voltou a beijá-la no pescoço, deixando uma trilha de desejo
que foi descendo pela barriga e alcançou a área mais sensível de seu corpo. –
Mas isso não acontecerá.
Engolindo
a lembrança e o desejo trazido de volta, Milena voltou ao presente, levantou-se
da cama, caminhou nua até o guarda roupa, pegou uma calcinha e um vestido leve
antes de ir ao banheiro. Ao passar pela cama, tocou o ombro de Nathan e
chamou-o para o dia.
-
Acorde Nathan, você tem de sair do quarto logo. – Disse de forma pouco suave.
- Bom
dia para você também, minha bela. – Ele acordou bem humorado, como costumava
ser. – Porque a pressa?
-
Porque estamos no campo, aqui as pessoas acordam cedo e se você não se
apressar, será visto por alguém. Eu vou ao banheiro. Saia discretamente.
Nathan
observou Milena caminhar até desaparecer atrás de uma porta. Linda e
sensualmente, ela caminhava nua sem se preocupar em cobrir aquele belo bumbum.
Essa Milena, ousada e direta na intimidade em contradição a mulher doce e
recatada da casca apresentada a quem não a conhecia de verdade. Milena não
precisava mesmo esconder-se. É bela, naturalmente, como poucas. Com todas as
marcas deixadas pela vida e que os olhos tendiam a chamar de defeitos ou imperfeições.
Poderiam até ser, mas não havia celulite capaz de esconder a beleza e
sensualidade de uma mulher segura e satisfeita. E foram as passadas firmes de
Milena que realçavam sua perfeição.
Ele a conhecia como nenhum outro, ao menos
fisicamente. Orgulhava-se de ter feito despertar nela aquela sensualidade a
flor da pelo que parecia adormecida. Nunca entendeu porque Milena ficou sozinha
por tanto tempo, preferia pensar que talvez fosse simplesmente um presente da
vida para ele, mas conscientemente entendia que isso era apenas o seu orgulho
masculino falando mais alto. A verdade é que poucos homens na terra seriam bons
o bastante para uma mulher feito Milena. E ele, diante de todos os seus erros,
certamente não estava entre esses merecedores.
- Mas sou eu quem ela gosta de ter ao lado. Então
dane-se! – Falou sozinho, pouco antes de recompor-se e ver a porta se abrir.
- O
que você faz ainda deitado aí?!?!?!
-
Estava pensando se consigo convencê-la a voltar para a cama comigo...ninguém me
veria sair do seu quarto se a gente ficasse aqui.
-
Deixe de bobagem, Nathan. Saia dessa cama agora. A gente já tem...já tem
problemas de mais pra criar mais um.
-
Está bem. – Ele então ergueu-se da cama, mas antes de se vestir, aproximou-se
da mãe de sua filha. – Mas eu quero um beijo antes. Um beijo de verdade, o
beijo que um homem oferece à sua mulher.
Nathan
não esperou que ela concordasse. Apenas enlaçou sua cintura, erguendo-a um
pouco do chão e transmitindo a mesma paixão da noite anterior. A mensagem foi
dita de forma clara e de diferentes formas. A paixão que viviam fora aflorada
mais uma vez e já não era possível varrê-la para algum cantinho escuro das suas
vidas.
- Não
fingirei que a noite passada não aconteceu. – Nathan disse ao soltá-la e vestir
as roupas amaçadas de forma apressada. Era um aviso, sem margem para
argumentos.
Eles
saíram discretamente do quarto. O chão de madeira antiga, porém, não ajudava a
manter os passos silenciosos. Trocando um olhar cúmplice, resolveram ir olhar
Maria e saber se ela passara a noite bem enquanto eles viviam sua madrugada de
paixão. Foram interrompidos no meio do caminho pela pessoa menos indicada.
Qualquer um teria ignorado o fato deles estarem juntos e com os rostos ainda
marcados pelo sono aquela hora da manhã, assim como fingiria não notar a roupa
da véspera em Nathan, agora bem menos apresentável. Vovó Ângela, porém, não
escondeu sua satisfação.
-
Rapidinhos hem.... espero que a noite tenha sido boa. – Comentou a idosa, com
pouco jogo de cintura. Viu a ambos ficarem constrangidos. – Qual o problema?
Não se acanhem. Eu ainda lembro de como é bom fugir para o quarto ao lado.
- Vovó!
– Milena rebelou-se.
-
Qual o problema menina? Você acha que eu não fui jovem? Que concebi seu pai por
troca de pensamento? Eu entendo dessas coisas...
- Por
favor...vovó...
-
Tudo bem Milena, sua vó está sendo franca. – Apesar de envergonhado, Nathan
sorria frente a situação. – Bom dia dona Ângela.
- Bom
dia, meu querido. Isso mesmo! Marque seu território. Essa menina precisa de
alguém como você.
Depois
de uma breve passagem pelo quarto de Maria Fernanda, todos foram para a mesa de
café da manhã. E pelos olhares curiosos, Milena não teve dúvida de que, ao
contrário de sexo, discrição era um tem que sua avó não dominava. Todos sabiam,
ou desconfiam, de que ela e Nathan já eram mais do que apenas os pais de uma
mesma criança. Eles estavam juntos. Só que Milena não estava tão segura da
forma como isso seria resolvido entre eles.
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